Desde cedo que fui ensinado que é muito importante poupar e, tão ou mais importante que poupar, é garantir que aplicaria essa poupança de uma forma rentável e segura. Poupar e investir são conceitos intrinsecamente ligados, pois só é possível investir aquilo que se poupou, na medida em que a poupança é um sacrifício do consumo imediato com o objetivo de consumo futuro, preferencialmente mais do que hoje se renuncia. No entanto, apesar de conceitos próximos, não são exatamente iguais.
Poupar refere-se, grosso modo, à capacidade de reter recursos que podiam ser usados para um consumo presente, na perspetiva de um consumo futuro. Investir significa a capacidade de rentabilizar essas poupanças com vista a preservação ou aumento do poder de consumo para o futuro.
Poderíamos pensar e bem, que investir não existe sem poupar, por outro lado, poupar já pode existir sem investir, mas aqui estaríamos a pensar menos bem, pois senão investirmos (apenas pouparmos), estamos a perder capacidade de consumo futuro (face à capacidade presente), na medida em que não preservamos o capital em relação à inflação.
Há a eterna e falaciosa ideia que é impossível poupar quando os rendimentos são magros e que por isso a poupança e, em particular o investimento, é coisa para salários chorudos, ricos ou afortunados com um qualquer outro largo tipo de income.
Eu contrario completamente essa ideia, porque apreendi desde cedo a poupar, tão cedo quanto comecei a receber a minha tão magra semanada, o que foi lá por volta dos meus 12 anos, numa altura em que só se falava em escudos e em que as notas verdes de Santo António e de Gago Coutinho (ambas de 20 escudos) tinham ainda muito valor.
Para qualquer jovem de 12 ou 13 anos, qualquer semanada é sempre muito pequena, principalmente numa altura em que começa a ser dono do seu próprio desejo de consumo e a responder, ainda, pelas necessidades escolares do dia-a-dia, como folhas de papel cavalinho, para as aulas de desenho, resmas de papel milimétrico, para os gráficos em matemática, talagarça para trabalhos manuais e outras necessidades do género; despesas essas que também tinha de entrar no estreito orçamento semanal.
Mais tarde juntou-se ao peso da despesa as saídas ao café, uns anos depois as saídas ao bar e por fim à discoteca – entre todas as outras necessidades que galopantemente apareciam a um jovem de 16 anos. É certo que as verdadeiras responsabilidades financeiras (ex. créditos), não existiam, mas acreditem que para um jovem com a vida social que tinha, essas despesas, que facilmente saltariam do orçamento semanal, eram para mim uma verdadeira responsabilidade que teria de gerir com pinças e de carteira quase sempre fechada.
Mas a verdade é que nunca foi o magríssimo income semanal que tinha, contra as grossas “responsabilidades” que se me arrastavam para cima com a vida escolar e social que me preenchia, que me impediu de poupar e o truque era simples: Pagar a mim próprio em primeiro lugar.
Todas as segundas-feiras, quando recebia a minha semanada, tinha por obrigação imediata pagar a mim próprio, o que significava tirar algum dinheiro para colocar de lado (naquilo que passaria a ser a minha poupança). Dessa forma, independente de todas as responsabilidades que me viessem a ser exigidas durante a semana, a poupança já estava garantida… Pelo menos até eu lhe mexer num qualquer desejo consumista de imediato.
Investir com rendibilidade acima da inflação
Desde novo tive hábitos de poupança, mas só mais tarde, já entrando no mundo do trabalho, adquiri hábitos de investir que, como vimos, apesar de conceitos próximos e intrinsecamente ligados, têm as suas, significativas, diferenças.
Tinha também um grande problema, que se arrastava há anos, é que para além da “grande” capacidade que tinha de poupar semanalmente/mensalmente, era também muito bom a, periodicamente, dar um sumiço imediato de toda essa poupança, afinal, poupava apenas para consumir mais no futuro e, para mim, esse futuro era sempre muito próximo. O problema que emergia dai, era a incapacidade de investir convenientemente, principalmente em produtos que me oferecem-se uma rendibilidade acima ou pelo menos igual à inflação, como seriam as ações e que implicavam uma perspetiva de investimento a mais longo prazo do que aquele que eu estava habituado.
Resumindo, tive de encontrar uma solução para o problema e, agora para além de me pagar a mim próprio primeiro, teria de arranjar forma de reter essa poupança (afasta-la do consumo) a uma taxa atrativa. A resposta encontrei-a no investimento em mercados accionistas.
Por: Octávio Viana, Presidente da Associação de Investidores e Analistas Técnicos do Mercado de Capitais







